TER ou SER: Em que você tem construído a sua vida?

Vivemos em uma sociedade que nos ensina, desde muito cedo, que precisamos ter.
Ter dinheiro, ter sucesso, ter reconhecimento, ter bens, ter um bom cargo, ter uma relação, ter uma determinada imagem...
E, sem perceber, muitas pessoas passam a construir a própria identidade sobre tudo aquilo que possuem. Mas existe uma pergunta importante: quem você é quando tudo aquilo que você tem deixa de existir?
A pandemia me fez refletir profundamente sobre isso. Muitas pessoas perderam o emprego, a estabilidade financeira, a rotina, os projetos, pessoas que amavam e até mesmo a sensação de segurança.
Quando os "TER" desapareceram, muitos também perderam o sentido da vida, adoeceram emocionalmente e alguns chegaram a acreditar que não havia mais motivos para continuar.
Isso nos mostra que o problema nunca foi ter. O problema é fazer do TER o alicerce da própria existência. O SER precisa ser a nossa base.
É o SER que permanece quando as circunstâncias mudam.
É o SER que nos ajuda a enfrentar perdas, frustrações e mudanças inevitáveis.
São os nossos valores, princípios, caráter, propósito e a forma como escolhemos viver que sustentam a nossa saúde emocional, mesmo diante das dificuldades.
Isso não significa que não possamos conquistar bens, crescer profissionalmente ou realizar sonhos, pelo contrário.
Podemos e devemos celebrar nossas conquistas, porém, elas não podem ser a única fonte da nossa felicidade ou do nosso valor.
Tudo aquilo que temos pode desaparecer de uma hora para outra.
Já aquilo que somos pode continuar nos guiando em qualquer circunstância.
Quando costumo dizer que precisamos aprender como não adoecer em um mundo adoecido, refiro-me justamente à importância de permanecermos firmes nos nossos valores e princípios.
Saber o que você quer é importante, mas saber aquilo que você não quer e aquilo que você não pode negociar é ainda mais essencial, pois existem limites que preservam quem somos.
Quando negociamos nossos valores para agradar alguém, para manter uma relação ou para conquistar algo, começamos, aos poucos, a nos afastar de nós mesmos.
E não existe conquista que compense o preço de perder a própria essência.
Muitas vezes esperamos que as pessoas nos valorizem, nos respeitem e nos reconheçam.
Mas o primeiro passo sempre começa em nós. Se eu não respeito os meus limites, se não valorizo quem sou e se me anulo constantemente para ser aceito, dificilmente conseguirei experimentar relações verdadeiramente saudáveis.
Anular-se para manter alguém ao seu lado ou para conquistar algo pode até trazer uma satisfação momentânea, mas quase sempre o preço é muito alto.
O resultado costuma ser o desgaste emocional, o vazio, o sofrimento psicológico e, muitas vezes, também o adoecimento físico.
Por isso, cuide do seu SER.
Porque os bens podem acabar. Os cargos podem mudar. As pessoas podem partir. As circunstâncias podem se transformar. Mas, quando o seu SER é sólido, você continua tendo recursos internos para reconstruir a vida, encontrar novos caminhos e seguir em frente com dignidade, equilíbrio e esperança.
Cumprimentos,
Psicólogo André Traves CRP 06/71300 OPP 30114
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